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esta merda é música ou é política?

Resumo da 3ª Tertúlia Punk na CasaViva, 21 fevereiro 2013
 
Este resumo já começa deficiente, uma vez que, na hora a que cheguei, o show dos Dead Kennedys já tinha acabado. Porém, o cheirinho a comida que vinha da cozinha demonstrava as coisas boas que ainda estavam para vir! Bem, depois de concretizada a acção de encher o estômago de comida, iniciamos os trabalhos com o já tradicional aviso de que tudo seria gravado, o que pode assustar alguns, mas que, para o Punkito, não fazia qualquer diferença. Mais uma vez, o debate teve a sua voz como trilha sonora.

Nesta noite, muitas perguntas se colocavam no ar: Punk é política? A estética do punk é necessariamente política, mas tem gente que só a leva pró lado estético? Ou então: É possível fazer punk sem fazer política? Qual é a influência que o punk teve na sua formação política? E esse jeito punk de fazer música é político?

Durante cerca de uma hora e meia, um intenso debate ocorreu, algumas vezes mais organizado, por muitas caótico, mas sempre interessante. Ao contrário do que aconteceu nas outras tertúlias, desta vez não fugimos ao tema do punk, nem caímos na nostalgia que pode se esperar de quarentões saudosos (essa foi só pra provocar...). Das coisas concretas que foram ditas, destaque para as iniciativas, segundo o Alex, “verdadeiramente” punks como, por exemplo, o Festival FDP, que inegavelmente possuía um cunho político, ou então as falas do Arnaldo que giravam em torno de um desejo de não rotular demais a coisa mas, ao mesmo tempo, de admitir que havia ali dentro de nós qualquer coisa de rebelde, qualquer coisa que grita, e que ao contacto com o punk essa tal coisa poder-se-ia libertar, ganhando voz e força, transformando-se em música e atitude.

Éramos quase 20 num debate que, por vezes, ficou bem quente, com vozes exaltadas e opiniões fortes, intenso como um bom mosh. No final do debate, terminado de maneira espontânea, sem que ninguém “determinasse” o seu fim, surge a pergunta do Kikas: “E afinal? Punk é política?”. Uns disseram sim, ninguém negou, mas o que se sabe é que de uma conversa boa como esta sairemos sempre com mais perguntas do que respostas.

(que) importa o que eu como

2ª Tertúlia Punk da CasaViva, 7 fevereiro 2013
Bom ambiente e casa composta. Pedrinho e Marroco embalaram o pessoal com os seus cânticos revolucionários. Por volta das 20h30 (?) deu-se início às hostilidades, para se responder à questão (que) importa o que eu como e para pensar na relação que as opções alimentares de cada qual têm, ou não, com o punk. Discutimos os conceitos: vegetariano, freegan, pescetarianismo... e as razões que levam as pessoas a adoptar essas mesmas dietas (saúde, sustentabilidade ambiental). O Punkito não parava de punkar.

Discutiu-se o consumo em massa e insustentável dos produtos de origem animal, as respectivas consequências na nossa saúde, o desrespeito pela vida animal e a insustentabilidade económica das criações gigantescas de animais (comida utilizada na alimentação do gado). Falou-se nas alternativas sustentáveis à produção industrial, no potencial das cidades como espaços para produzir alimentos, no mau aproveitamento agrícola do zonas periféricas e do interior. Debateu-se o êxodo urbano para o campo e estabeleceu-se um paralelo com a actual situações económica do país e com todos os efeitos nefastos do capitalismo, do monopolismo e do consumismo.O Punkito não parava de punkar. Discutiu-se os preços de certos alimentos nos mercados e como isso afecta as opções de dieta. Explicou-se a produção pecuária e agrícola adoptada pelas populações no meio rural e todos os seus benefícios. Comparou-se ainda o modo de vida no campo com o modo de vida sedentário na cidade.

Concluiu-se que é possível ter uma alimentação saudável recorrendo a dietas mais sustentáveis e não tão nocivas para o ambiente. O vegetarianismo é, sem dúvida, a dieta mais ecológica. Por outro lado, a exploração pecuária é insustentável nos moldes capitalistas actuais e isso está a ter e continuará a ter consequência na humanidade e no ambiente. É possível também adoptar métodos de exploração pecuárias e agrícolas mais sustentáveis, equitativos e tecnologicamente avançados do que os actuais.O Punkito não parava de punkar.

DIY or DIE, opção ou onda?

1ª Tertúlia Punk da CasaViva, 24 janeiro 2013
Acabou de forma abrupta: punk. Começou à punk tuga, duas horas depois do anunciado. Correu muito bem. Participado. Quando a conversa arrancou, pelas 21h00, já a sala de entrada se enchia de gente. Terminou passava das 22h30. O que é isso de DIY or DiE? O famoso grito "Faz tu mesmo ou morre" abriu a série de tertúlias punk em que a CasaViva se aventura para pensarmos no que gira à volta da cultura punk, os seus princípios, as suas influências e as suas práticas no dia-a-dia. O Punkito estava muito chato. 

Em jeito de provocação, o tema foi lançado ao som de folk, como exemplo de DIY fora do punk: afinal quem é mais punk, o Ryan Harvey, que trata da cena dele por ele próprio, da criação à distribuição, ou os Dead Kennedys, com roadies e agências de management? Pois... Até que ponto as bandas punk fazem produções independentes, DIY, por opção ou por falta de alternativa? Se tiverem oportunidade de assinar com uma editora, não preferem? O pessoal pensa muito em ter editora. Mas que editoras assinam contratos com bandas punk? Nos anos 90, as bandas underground editadas, que correram mundo, perderam fãs. Mas todas as bandas querem ser ouvidas e dar concertos. A editora dos Rage Against the Machine é a Sony, é preciso não esquecer, falar de bandas underground e de editoras é muito complicado, o Baunilha parece zangado ao dizer isto. Já se tinham citado outras bandas e conversado bem mais do que estes apontamentos transmitem. Foi então que o moderador, pouco fascistador, fez outra pergunta: A partir de que altura deixa de ser DIY? 

Ouviu-se uma resposta pronta: DIY começou por ser uma necessidade, só passou a opção nos anos 90. Hoje é mais uma opção ideológica do que a alternativa para quem nem trocos tem, como começou por ser, em tempos hippies. E hoje há outras ferramentos, com a facilidade de fazer download do Jamendo*, para quê gastar dinheiro num cd? Por outro lado, poucas bandas se importam com a tradução das letras, sejam em que língua forem, o que mostra pouca preocupação em fazer passar alguma mensagem, a música sobrepõe-se. Um punk não pode ser sinónimo de individualismo, é a denúncia de um sistema que não está bem. Ser punk é uma onda. Punk é a atitude. A atitude é pá piça. Várias vozes ao mesmo tempo, gargalhadas. Mais de 30 presentes. Há os de género e idades variadas, entre os que estavam a nascer no início dos anos 90 e os que tinham então a idade que esses têm hoje. 

Altura de focalizar a conversa, lembrar o DIY. A propósito, falou-se de “gente escondida” que há 20 anos tinha 20 anos, num tempo em que nem se sonhava o que ia ser a internet e que a educação das causas que se iam defendendo implicavam produção da própria informação. Gente ali que afinal não estava escondida e que então fazia fanzines, o grande veículo alternativo. O DIY em pleno.

“Tosse Convulsa” foi o primeiro fanzine que o Ricardo conheceu. Uma folha A4, muito mal copiada de tão fotocopiada que já havia sido. Daí a dedicar-se à coisa não demorou e embrenhou-se, começou a recolher contactos de outras fanzines doutros sítios, a trocar informação e a espantar-se com o fluxo de flyers e outra info que lhe chegava diariamente à caixa postal. Tinha contactos em todos os cantos do mundo. Era uma cena espectacular, diz o Noé. A cena dele começou por ser a poesia, e passou a escrever, fotocopiar e vender, montava banca nos concertos punk... e continua. A propósito de fanzines podia correr-se mundo. Da música punk chegava pouco, só se falava de Sex Pistols, e mal, e de Ramones, horrível, e aparece uma revista a falar dos The Cure, espectacular. Havia lojas em que se conseguiam coisas. Mas a informação não era em bytes. “Campo de Concentração”, fotocopiado e encadernado com capa dura, acervo da biblioteca da casa, percorre mãos.

Mas afinal o que é ser punk? A dúvida existencial desestabiliza, pois então. Um dia fiz um moicano e no dia seguinte estavam a chamar-me punk, tás a ver a onda? Várias vozes aos mesmo tempo. Destaca-se a do Punkito: todos os dias nasce um punk, sem saber. Há bolos, com coberturas coloridas, e suspiros com creme de ovo. 

No tempo das fanzines os próprios concertos eram organizados DIY. E o Noé fazia um grande programa de rádio, muito bom Frágil dixit, música underground, domingo à noite. O tempo das fanzines deu um toque de nostalgia entre quem lhe guarda memórias e que fez mais novos dizer que a conversa teve um momento muito histórico :) 

Pedrinho fala da sua experiência enquanto jovem anarquista no Rio de Janeiro, participando em okupações: para mim, DIY era ocupar e construir a vida. Fala-se do DIY enquanto meio de sobrevivência, como modo de viajar e conhecer o mundo, contrariando a tendência de amigos do facebook, se bem que também seja um veículo para o conhecimento. O DIY depende de como usas. 

Por que a conversa se encadeia, de repente já se falava de punk e política e política e punk, mas o assunto foi travado por ser esse o tema de uma outra tertúlia. Foi mais ou menos então que se fechou a conversa. Conclusões? Volta Punkito, estás perdoado. Mas frescas 20% menos caras só mesmo na próxima tertúlia punk, 7 de fevereiro. 

*Jamendo - site que permite livre acesso a músicas, sob licença Creative Commons ou da Arte Livre

uma história fotográfica de resistência rural

a partir de 19 janeiro sempre que a casa esteja aberta
















ZAD - ZONA A DEFENDER
Mais do que uma luta contra um aeroporto...

  
A uns 20 km de Nantes, um projecto de construção de um aeroporto internacional encontra uma forte oposição, tanto localmente como através de diversas redes. Enquanto alguns tentam expandir a "metropolis" a estes campos e bosques, centenas de pessoas ainda okupam e resistem nos terrenos afectados na área que chamam de ZAD (Zone a Defendre). A propaganda eco-desenvolvimento pretende fazer-nos esquecer os interesses capitalistas e o seu controlo sobre as nossas vidas. Mas a resistência contra projectos destruidores intensifica-se por todo o mundo.

Com o início do despejo da ZAD (em outubro) e juntando-se a recente compra da ANA Aeroportos pela Vinci Corporation é uma altura ideal para nos solidarizarmos com esta luta. Uma luta contra a ordenação das nossas vidas, contra o urbanismo e a sociedade de controlo. Uma luta contra o mito do crescimento e a ilusão da participação democrática. Uma luta pela libertação de terras e uma certa autonomia frente ao sistema capitalista. 

Mais do que uma luta contra um aeroporto, é uma luta contra esse mundo que o acompanha!

a horta no sábado...

...foi ao Círculo Rimbaldiano 
e o  Círculo Rimbaldiano foi à horta

Foi assim este último sábado, 10 de novembro.
A partir do meio-dia, as mãos já se embrenhavam nos afazeres que o espaço do logradouro da casaviva propociona.

Chega mais alguém com vontade e é por isso hora de começar a construir o compostor. Tudo corre bem.

Quando se repara são já perto das 15h00 e, solidariamente com o objectivo de ajudar na montagem do vídeo-projector, respectiva tela e sistema de som, a horta vê-se de repente dentro do Círculo Rimbaldiano, aprendendo sobre Arthur Rimbaud. Pena que por esta altura já só esteja uma das duas pessoas que estiveram na horta, mas ainda assim foi boa esta visita.

É agora a vez do Círculo Rimbaldiano visitar a horta e dar uma preciosa ajuda na construção do compostor. E eis senão quando ficou prontinho para se usar.

Ficam aqui algumas imagens da construção do compostor.











arte occupas despede-se das escadas da casaviva

até 29 fevereiro, das 16h00 às 22h00 entrada livre

Desde 11 de fevereiro. Mais info aqui.
www.virusinporto.info

lembrar alexis

No dia 6 de dezembro de 2008, o jovem Alexis de 15 anos de idade foi assassinado por dois polícias gregos, no bairro Exarchia, centro de Atenas. Desde então que a Grécia assiste à insurreição contra as políticas de um governo que acabou por cair nas mãos do FMI. O país está hoje bem pior do que há três anos, com o desemprego a atingir 20%. Há fome, há pais que entregam os filhos a instituições de caridade. A miséria está na rua. Há três anos a revolta era liderada pela juventude, estudantes sobretudo. A morte de Alexis foi a evidência da brutalidade policial, que não tende a abrandar.

No dia 6 de dezembro de 2011, três anos depois, várias manifestações reafirmaram que não esquecemos as consequências da existência de forças policiais nas sociedades de hoje: indivíduos desestabilizados psicologicamente por um sistema que os incita à violência ilimitada como resposta a qualquer manifestação de liberdade da população, da qual se pensam protectores às ordens dos objectivos neoliberais dos seus donos. Nesse dia, foram apanhados pela polícia de choque grega 19 pessoas (14 gregas, três alemãs, uma espanhola e uma portuguesa). Passaram duas noites encarcerados. Quatro dos cinco estrangeiros tiveram de pagar 2000€ de coima para poder esperar em liberdade o julgamento que se efectuará daqui a um ou dois anos (reavendo o dinheiro, caso compareçam) e todos os acusados tiveram de pagar 750€ de taxas judiciais.

Para ajudar a custear estas despesas, a CasaViva envolveu-se de novo com esta causa, acolhendo um benefit com concertos nos dias 13 e 14 de janeiro de 2012, excelente pretexto para recordar Alexis. E, já agora, voltar a exibir a faixa alusiva colocada na fachada da casa após a sua morte, a 20 de dezembro de 2008. Durante duas semanas, a denúncia não passou despercebida na praça do marquês de pombal, no Porto. Até que a bófia mandou tirar a faixa, alegando que “incitava à violência, cometendo o crime contra a paz pública”. O processo seguiu para o ministério público e acabou arquivado, a faixa não foi devolvida.

Então como agora, queremos deixar bem claro que não temos dúvidas de que lado estamos, solidários com os que lutam. Contra a censura continuamos a afirmar: o estado criminaliza, a imprensa aponta e a bófia dispara. Na Grécia ou em Portugal.

fui ao jardim do DIAP giroflé flé flá

Um apelo em forma de relato

O segurança do DIAP, que mais não é do que o homem que aponta o nome de quem sabe ao que vai e orienta quem não sabe, disse-nos que a 1ª secção, na verdade a primeira de que nos lembramos, era do outro lado da rua. Do outro lado da rua, a menina que nos atendeu, e que tratava, de facto de coisas da 1ª secção, informou-nos que tínhamos acertado à primeira, senão na secção, pelo menos no edifício. Mas, onde tínhamos escolhido subir as escadas para o que nos parecia a entrada principal, e que o era, de facto, deveríamos ter decidido descer para o que parecia uma arrecadação, mas que era, na realidade, a secretaria, ou seja, o local onde nos indicariam definitivamente a secção a que nos deveríamos dirigir, assim como o respectivo piso.


Voltamos a atravessar a rua, onde se esqueceram de desenhar uma passadeira, quiçá um viaduto para peões, para facilitar as viagens de um edifício para o outro, ambos do DIAP em tête-à-tête na rua, nem de propósito, da Constituição. O moçoilo que nos atendeu solícito deixava o telefone tocar, afinal ele estava embrenhado no seu computador a ver se descobria para onde nos mandar e ia agora um gajo, só por ser ao telefone, passar à frente de quem lá estava presente, quem quer que seja que tente mais tarde e pode ser que tenha a sorte de, nesse preciso momento, ele não estar com outro caso entre mãos. Neste, o número do processo que a 7ª esquadra da Polícia de Segurança Pública do Porto tinha dado ao caso da apreensão da faixa não aparecia em lado nenhum. Subam ao 2º piso e, na 5ª secção, peçam para ver se o processo agora não tem o número tal, foi o melhor que se arranjou. Assim fizemos.


E, de facto, segundo nos informou a funcionária que preferia ter feito ponte naquela véspera de Carnaval, o processo da faixa estava apenso a um outro processo. Já receberam outra notificação, não é verdade? Não era. Não importa! O que importa é que foi tudo arquivado. Um momento... Não importa?! Então há um processo, que até foi arquivado, valha-nos isso, calcula-se que por falta de validade e/ou viabilidade, sem que os alegados proto-arguidos tenham sido notificados, e não importa?! Faça lá o favor de nos dizer que processo é esse. Nem imaginam a pilha de documentos que tenho lá dentro, não tenho tempo para procurar isso, ainda por cima hoje que tenho a fezada de bater o meu record no tetris. Não disse tanto, claro está, alguma coisa tê-la-á apenas pensado, façam o favor de a considerar pura especulação nossa ao olharmos para a cara que nos lançou a funcionária que preferia ter feito ponte naquela véspera de Carnaval.


Bem, então se se arquivou o processo da faixa, se se descobriu que não havia justificação para levar a coisa a tribunal, se se achou, realmente, que a nossa mensagem não apelava à violência... queremos a faixa de volta. O quê?! É verdade. Queremos a faixa. Vão ter que pedi-la e, depois, o magistrado decide se a entrega ou não. Como é que é? Escrevem um papelito a fazer o vosso pedido e logo se vê se é atendido ou não. Então tiram-nos a faixa por considerarem que é prova de crime, decidem que, afinal, não há crime e podem recusar-se, se lhes apetecer, a devolver a faixa? É assim mesmo.


Adiante. Não tem, por acaso, uma minuta que nos possa orientar? Mas vocês vão mesmo pedir a devolução da faixa? É convosco, mas pode dar azo a que haja um processo contra vocês. Por pedirmos a devolução da faixa? Vocês vão-se identificar e, assumindo a autoria, já há sobre quem fazer cair as responsabilidades. Mas a autoria já foi assumida na 7ª esquadra e, de certeza, isso fez parte das alegadas provas que algum magistrado viu antes de arquivar o caso... Afinal vocês querem a faixa ou querem um processo?, enervou-se a funcionária que preferia ter feito ponte naquela véspera de Carnaval. Nós queremos a faixa.


Se bem que um processo até vinha a calhar. Porque, se é vergonhoso, que se apreendam livros com nus nas capas, não o é menos que se retire, no dia a seguir a balear-se um puto à queima-roupa, uma faixa por ter escrito que a bófia dispara. Este ataque à liberdade de expressão e o processo que foi a nossa experiência no DIAP são reveladores de que se decidiu, sabe-se lá quem e sabe-se lá quando, que se permite que a polícia mate e se proteja censurando. Vá lá que em Braga censurou e não se protegeu matando. Mas nunca fiando...


Nesse caso, a coisa foi mediatizada, o Ministério Público entrou em cena e o rapaz dos livros tem conhecimentos, dinheiro e paciência para levar a coisa a tribunal. No nosso caso, a mediatização foi impossível, não só pela nossa consciente falta de esforço, mas também porque a faixa ligava o papel dos média à impunidade com que a polícia dispara. O Ministério Público arquivou o caso sem se preocupar em averiguar se houve algum delito contra a liberdade de expressão. Triste a sina de quem tem que viver num sítio onde o controlo do MP sobre a legalidade do trabalho dos seus subordinados está dependente da agenda mediática.


Resta-nos, portanto, se quisermos que isto não passe impune, ter a iniciativa de processar a polícia por atentado à liberdade de expressão. A questão é que não somos como o rapaz dos livros e não temos conhecimentos, dinheiro ou paciência para tal. Portanto, se fores ou conheceres alguém que possa tratar disso, estás a arranjar uma forma de garantir que a autoridade tem que começar a ter mais cuidado antes de entrar a abrir e a censurar o que lhe apetece. Fala connosco.


Doutra forma, o mais provável é que não aconteça mais nada em relação a isto, para além da devolução da faixa, que faremos por recuperar.

chamem a polícia que eu não saio da praça

Estavam à nossa espera. O blog anunciava o início da festa às 11h00, mas passava do meio-dia quando começamos a montar bancas, mesas, cadeiras, bancos, cavaletes, xadrez, livros, pincéis e papéis na praça do marquês. Apareceram de imediato. PSP, dois agentes, um dos quais graduado. O mesmo que comunicou ao primeiro que abordou que ali não podíamos estar, por se tratar de um evento anunciado, o blog que haviam consultado assim o confirmava e tal carece de licença, coisa de que não dispúnhamos.


“Evento” … o termo, e respectiva definição, desenrolou uma conversa de mais de uma hora. Sobre este e outros conceitos não se chegou a consenso algum. Ficou o aviso: “sujeitam-se a que apareça a polícia municipal e apreenda todo o material que aqui se encontra”. Pretendíamos, apenas, provocar um encontro numa praça da cidade, um encontro para distribuir informação, conversar, jogar xadrez ou jogar à petanca, pintar, fotografar, ler, estar. Regado com alegria de palhaços e almoço popular. Tudo isso aconteceu.


Pelas 16h30, quando a também anunciada polícia municipal surgiu, recolhíamos já à CasaViva, um espaço de propriedade privada mas porventura dos mais públicos na verdadeira acepção da palavra. A fachada exibia então um Aviso Público: A censura é sempre mais violenta do que qualquer faixa. Ao contrário da autoridade, a CasaViva não censura, não criminaliza, não mata. (*)


Como a realidade lá fora é outra e porque o desconhecimento da lei não é desculpa para poder prevaricar no que à mesma diz respeito, com a colaboração do referido simpático agente no seu esclarecimento, elaborou-se o possível Manual de Frequência do Espaço Público:


1- Não se pode montar bancas de informação, com ou sem rodas, mesmo que não existam transacções comerciais. Pode distribuir-se propaganda desde que autoportante e, em caso de cansaço físico, só se pode sentar e/ou pousar essa informação em mobiliário municipal por poucos segundos, talvez um minuto, a lei parece não ser muito precisa.


2- Não se pode trazer um sofá para a praça e confortavelmente sentar-se ao sol a ler um livro, mas pode-se trazer uma cadeirinha, cuja dimensão parece que a lei também não refere com precisão, nem o tempo em que essa cadeirinha poderá estar a incomodar no espaço público. Segundo o agente graduado, a grande diferença entre um sofá e uma cadeirinha, numa praça, é o facto de o sofá provocar os transeuntes a questionarem-se do porquê de tal mobiliário "anormal". Está a dizer-me, então, que a lei existe para defender as pessoas de se interrogarem sobre o que as rodeia? "Sim.” E que, portanto, a lei existe para normalizar as pessoas impedindo-as de exercerem o seu espírito crítico? "Sim.”


3- Pode-se ter um cavalete para qualquer cidadão pintar, mas se for mesa, nem que seja para crianças, já não pode ser.


4- Pode-se ter e estar a jogar xadrez num tabuleiro desde que não incorpore uma mesa.


5- Para se realizar um encontro com mais de três pessoas, este não pode ser anunciado na Internet, pois será considerado organizado e portanto carece de autorização do Governo Civil. Mas se esse ajuntamento já tem história, é tradição, já pode livre e espontaneamente acontecer, conforme comprova o ajuntamento dos senhores do jogo da sueca, diariamente na praça do marquês. E para ser considerado tradição não chega ter como antecedentes só dois outros encontros, não se sabe se os nossos recentes três já serão suficientes.


5.1- Se o encontro for numa praça, por mais que seja um local de estar, é preciso ter cuidado quanto ao fim a que se destina, para não pôr em risco o que ela por definição não é, corredor de circulação pedonal. Ficai os interessados também a saber que, se corredor fosse, teria de se chamar Stª. Catarina e ser ocupada na altura em que está vedada ao trânsito automóvel. Se assim for, já isto e muito mais poderá acontecer e mesmo que bloqueie a passagem de um transeunte desinteressado não carece de autorização do Governo Civil.


5.2- Se clandestinamente organizar qualquer coisa, evite chamar-lhe evento, escamoteie o facto de ser organizado, mesmo que o não seja e verifique se está numa praça e se na sua fronteira existe algum edifício do qual possa sair gente considerável que necessite atravessá-la, como, por exemplo, uma igreja. Pois é, parece que o espaço público, apesar de assim se manter nomeado e além de cada vez mais parco nas nossas cidades, está cada vez mais parecido, nas suas limitações, com o espaço privado.


6- Embora o que dizem que a lei diz, não diz se o que no dicionário quer dizer é o que a lei diz. Para quem necessite ou deseje frequentar o espaço público, fique a saber que um dicionário de 2009 diz o seguinte:

“Evento”, do latim eventu, acontecimento.

“Organização”, acto ou efeito de organizar, preparação, planeamento, disposição que permite o uso e funcionamento eficiente, relação de coordenação e coerência dos diversos elementos que formam um todo.

“Praça”, do latim platêa, praça pública, lugar amplo, zona de estar, geralmente rodeado de edifícios [o que quer dizer que as ruas que a ladeiam são a área de circulação desse espaço].

“Rua”, do latim ruga, sulco, caminho, via ladeada de edifícios, zona que privilegia a circulação.


7- Mesmo assim se a sua acção levar os transeuntes a saírem das suas vidas pacatas, questionando-se na sua realidade e na do mundo que os rodeia, já corre sérios riscos de apreensão de todo o material por parte da polícia municipal e, no mínimo, são necessárias identificações dos provocadores dessa acção. Corre ainda um outro risco, o dessa acção ser considerada crime contra a paz pública, isto se subjectivamente tornar viável a hipótese de um cidadão, e basta um, com “um nível cultural baixo”, mais uma definição em que a lei peca por falta de precisão, interpretar mal a acção e desta forma sentir-se impelido à violência; pode vir a ser acusado de terrorismo, o que não será forçosamente mau se desejar alguma projecção nos média, desde que arranje um bom advogado para não acabar a gozar a sua glória aos quadradinhos.


Querem melhor e mais genuína, vindo de quem vem, explicação da lógica das leis? São estes os nossos sete pecados mortais a acrescentar às razões que contribuem para esvaziar o espaço público, torná-lo mais inseguro e, portanto, necessariamente mais policiado, violento e repressivo, em cidades cada vez mais elitistas de gente que se auto-enclausura em condomínios fechados que proliferam como cogumelos. Esta chama-se Porto Vivo, até podia ser vip mas é zip (zona de intervenção prioritária): um somatório de casas devolutas a recuperar para uma população influente, endinheirada, a bem de uma cidade chique, cuja alma é empurrada para os subúrbios. Porque a alma é a gente que lá nasceu, cresceu e viveu, com conta na mercearia, que pode contar a história daquela esquina, que conhece o vizinho que lá viveu antes, o barbeiro que já fechou e as vendedeiras do Bolhão de geração em geração. É a morte da cidade Aniki Bobó.


Tudo isto obriga a uma actualização de conceitos, pois praça, rua, casa, espaço público e privado já não são o que eram e nem um gajo que queira ser “um cidadão exemplar” sabe como agir. Portanto, já sabem, quando saírem de casa deixem o espírito crítico na gaveta da mesinha de cabeceira senão sujeitam-se a que, em Portugal, hoje e amanhã… a autoridade vos tente amordaçar.














CasaViva, 28 fevereiro 2009


(*) Episódios anteriores:
faixa apreendida
casa assaltada, faixas à mostra
contra a repressão do estado