2 de setembro: a assembleia que não se realizou

Crónica em jeito de reportagem
Quando a realidade ultrapassa a ficção

Primeiro domingo de Setembro, meio da tarde, soou o batente no nº 167 da Praça do Marquês de Pombal. Não era a primeira vez na última meia hora, estava para começar uma reunião. Quando me aproximei da porta dei conta que estava entreaberta e que o Marquês ia a sair. Pé fora para o apanhar e dou com dois senhores fardados de azul. “A casa é sua?”, perguntam. “Só um momento”, pedi com um jeito de mão e apressando o passo em direcção ao cão. Recolhido do abandono na serra do Marão, não havia de se perder, agora e assim, de novo. Seguia decidido pela aventura, voltou contra vontade.

“A casa é sua?” A mesma pergunta. Os senhores agentes da autoridade batiam à porta para pedir contas da propriedade. Porque haviam recebido um telefonema a dizer que o cadeado daquela porta havia sido arrombado, alegaram. À porta, vindo de dentro, apareceu um dos proprietários. À porta, vindos de fora, continuavam a aparecer homens de olhar meio perdido, casa adentro. “O que é que se passa aqui?” O rumo das perguntas mudou perante as visitas. Passaram a interpelar quem chegava. Homens predominantemente morenos. O que fazem aqui, quem são? Imigrantes que vêm para uma sessão de esclarecimento sobre a nova Lei da Imigração, promovida pela Essalam. O que é isso? Uma associação de imigrantes do Magreb. E fazem aqui reuniões semanais? Não, é apenas uma reunião alargada, esta tarde. Para começar a que horas? Às 16h30. Quanto tempo demora? Talvez umas duas horas.

Chegam mais dois marroquinos. São inquiridos. Não, não têm papéis. Rachid Fathi aparece de dentro a ajudar na tradução. Fala árabe com os que chegam, um dos agentes enerva-se. Rachid explica-se em português. É ele quem dirige a Essalam, associação criada há dois anos no Porto para apoiar a integração dos magrebinos que vêm para cá à procura de trabalho e de melhores condições de vida. É marroquino, como grande parte das duas centenas de associados da Essalam. Rachid volta a entrar com os seus companheiros, deixa os documentos com a autoridade. Os agentes da PSP avisam que da próxima que os apanhem sem papéis chamam o SEF.

O interrogatório continuou, enquanto se aguardava quem traria os documentos que comprovavam a propriedade da casa. Sem provas de que a casa não fora ocupada, não arredariam. Receberam uma queixa, têm de averiguar. Como é que conheceram o Rachid? Quantas pessoas estão lá dentro? Há algum problema em entramos? Telefonemas para o SEF.

Um dos agentes acabaria por entrar, cerca de uma hora mais tarde, com a chegada de quem trouxe as provas de propriedade. Estacionado então, frente à porta, estava um Mercedes descapotável, de onde haviam saído três homens jovens com ar de quem andava a dar um passeio de domingo. Cumprimentaram os seus colegas fardados e mantiveram-se no terreno.

O agente que entrou foi um dos que batera o batente, horas antes. Verificados os papéis, pediu para ir à sala da reunião. Onde haviam estado umas dezenas de magrebinos encontrou cadeiras sem gente e tapetes no chão. Por razões que a razão conhece, a assembleia da Essalam fora interrompida e os seus participantes foram saindo pela mesma porta por onde entraram, virada para o jardim da praça, enquanto decorria o suspeito espectáculo que há-de sempre provocar a concentração de carros da polícia. O número de curiosos ia crescendo com o número de agentes presentes no local. Aconteciam episódios paralelos, dois espectadores a pegarem-se e um carro a ser mandado parar, o condutor era cigano, viajava com raparigas alegadamente menores e não tinha documentos. Não era o único nessa tarde, mas foi o que teve menos sorte e que seguiu para a esquadra.


Algum problema? Problema é baterem à porta de uma casa a pedir a quem está dentro os documentos que comprovem que tem direito a estar em sua casa e a receber os seus convidados. Esta podia ter sido a resposta. Não foi. Mas a versão original desta história foi, no essencial, muito semelhante a este relato, salvaguardando-se as devidas traições que o tempo provoca à memória, sobretudo no que respeita à sequência das perguntas. O episódio durou umas duas lentas horas. Foram identificadas três pessoas da casa. A duas, foram pedidos os respectivos números de telefone. Ficou o aviso de que no dia seguinte, segunda-feira, o SEF poderia ligar. Não ligou.

Na porta daquela casa nunca existiu cadeado, pelo menos nos últimos 30 anos. Na porta daquela casa foi colocado um papel naquela tarde a indicar que era ali, CasaViva, que se realizava a segunda assembleia-geral ordinária da Essalam. O mesmo anúncio permanece no blog da Associação dos Imigrantes Magrebinos e de Amizade Luso-Árabe. (http://www.assoporto.blogspot.com/) Nada foi feito às escondidas. Ninguém é ilegal.

mix revoltoso

sáb. 28 julho, 19h00 entrada livre
música, comida, cinema, letras












Dizem que é deste ruído que a vizinha se queixa
E que o Pica Miolos vai aparecer
Para além das bicadas habituais, traz ainda mais barulho
Não vai haver carne, mas uma sopinha de pedra no sapato
E apelos pirómanos contra a STCP
Daí o mini-glossário útil a qualquer portuense

19h00 - Abertura

20h00 - Sektor 304
Industrial-noise
www.myspace.com/sektor304

20h30 – Vídeo: Live at CasaViva, de Miguel Meira












CasaViva, 30 Abril 2006, fim de tarde, domingo.
Electrocutatus Santificatis Rudimentarum Extremis
Electrocutatus Santificatus Rudimentarus Extremis
Electrocutatum Santificatum Rudimentarum Extremis

davam o seu primeiro concerto, a sair do forno do circuit-bending
Eram seis: alves+marta+nelson+lucas+jorge+pablo. Ficaram o João Alves Von Calhauism e Marta Ângela Von Calhauism, chamam-se agora Calhau.
www.myspace.com/calhau
casa-viva.blogspot.com/2006/10/concertos-fortuitos.html

21h00 – Sal y Mileto
Rock progressivo do Equador
salymileto.blogspot.com
http://www.salymileto.com.ec/

22h00 – Jantar sem carne mas com cinema: mobilizações contra o G8 em Rostock, as palavras de Abril patenteadas pela Sugai e a carga policial no Chiado.

23h00 – “Outlawed: Extraordinary renditions, torture and desappearances in the war on terror”, de Witness (26’50’’)
Documentário (EUA): as histórias de Khaled El-Masri e Binyam Mohamed, dois homens que sobreviveram à rendição extraordinária, à detenção secreta e à tortura perpetrada pelo governo dos EUA em aliança com muitos outros países de todo o mundo.
Inglês (sem legendas)

24h00 – Primeira audição pública do primeiro CD legal editado sem autorização das bandas.

punk português

6ª, 27 julho, 19h00 entrada livre

















100Talento
Punk Crust de Vila Nova de Sto. André, no Alentejo
http://www.myspace.com/100talentopunk

Sexo no anexo
Punk de Ermesinde
http://www.myspace.com/sexonoanexo

Mr Myiagi
Karaté Punk de Viana do Castelo
http://www.myspace.com/mrmiyagifastcore

tocando áfrica

5ª, 26 julho, 19h-22h entrada livre












Encontro de dança e percussão tradicional da costa Oeste africana, sob orientação do movimento Wontanara.

Traz djambés ou outro instrumento de percussão, roupa confortável e muita energia! Traz também cadernos, lápis, material escolar para enviar para a Escola Primária da Ilha De Roume, na Guiné Conakry, para ajudar crianças a aprenderem a ler, escrever, desenhar e fazer contas.

Feia Medroño, Gustavo Costa e Eye 8 Soccer






erro! "isto é o quê, mãe?"


tarde de concertos

se a noite noite não dá, à tarde ficará noite

sáb. 21 julho, 16h00 entrada livre
























Gustavo Costa
Cinco pequenas peças no clássico estilo trapézio com rede, ou seja, estruturas de improvisação acústica (percussão e objectos) sobre uma base electrónica pré gravada.
Eye 8 Soccer
“Eye 8 Soccer é um dos inúmeros projectos e alter-egos de João Gama Marques (1982), residente em Lisboa, e um dos mais dinâmicos e activos agitadores culturais da capital, através das edições e eventos promovidos pela Useless Poorductions, editora orgulhosamente caseira e fortemente militante do espírito “do-it-yourself”, que completou recentemente 10 anos de actividade repletos de algumas das mais extremas edições trazidas a público no nosso país
www.myspace.com/eye8soccer

Feia Medroño
Nascidos e criados na Ponte, estes dois engenheiros da Chungaria inspiram-se nos sinos da Igreja da Nossa Senhora do Carmo para fazerem música. São difíceis de capturar e manter em concerto durante muito tempo, porque passam a vida a festejar, de forma rápida e alucinista. Rezam as lendas que os seus concertos são o seu confessionário onde se redimem dos pecados do festejo. De dia nunca ninguém os viu...

Organiza: Lovers & Lollypops